09 junho, 2009

o legado do nosso tempo

A maioria acreditava que o sacrifício pessoal, o trabalho, o esforço seriam de alguma forma retribuídos pela sociedade com bens materiais e alguma dose de reconhecimento.

Essa enorme maioria decidiu-se por acreditar que o ensino lhe abriria as portas do futuro e da progressão social. Afincadamente entregou-se às aulas e ao estudo, enquanto a geração anterior, a mesma que proclamava esse sonho democrático de reconhecimento pelo esforço lhes pagava os estudos com um sacrifício proporcional.
A maioria desembocou entretanto num mercado de trabalho que não os quer. E se os quiser, tem tanto por onde escolher, que os condena como a um qualquer "produto" às leis da oferta e da procura.
Chamam-lhes precários ou desempregados. Eu chamo-lhes amargos.
Acidificaram-se perante uma realidade desesperante que lhes tira o futuro.
Seria de prever que este seria o pior resultado de todo um conjunto de erros que os empurrou para esta situação, no entanto, aquilo que aparentemente se acha mais comprometido é o futuro.
Será toda esta enorme maioria que irá transmitir um conjunto de valores à geração seguinte, e não se iludam, o principal legado a deixar será a de uma acidez generalizada que se transformará em raiva futura.

A próxima geração deixará de acreditar que o esforço compensa. De facto, aquilo que hoje em dia a sociedade tem para oferecer no seu conjunto é que a sorte, o compadrio, o jogo e a fama fácil são as entidades geradoras de mérito e fortuna.

Os pais da próxima geração têm a moral falida, já não têm coragem para olhar frontalmente os seus filhos e dizer que o trabalho ou o estudo lhes proporcionarão uma vida melhor quando para eles isso não funcionou. Sem essa moral, deixarão os filhos a vaguear por entre canais de televisão e ecrãs de computador para que sejam estes e não eles a transmitirem os valores vigentes.

E no final, o principal legado dos nossos tempos, será toda uma massa pouco informada e acrítica, consumista, profundamente egoísta e imoral que sustentará a sua forma de vida com expedientes mais ou menos honestos, crédito fácil e muita violência à mistura.

08 junho, 2009

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"As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem"
Sophia de Mello Breyner Andresen